Antes que pudesse pensar, estava no meio de um bosque. Procurou por uma brisa, um pouco de ar puro numa respiração profunda. Era impressionante como aquele lugar o acalmava, o tirava da incerteza na qual parecia estar imerso. Numa área imensa coberta por uma calma que só décadas e décadas de crescimento poderiam lhe oferecer, desistiu de voar. Foi para o chão, com os pés descalços para ouvir o que a terra úmida tinha a lhe dizer.
Enquanto estava lá, buscou conversar com as árvores, extrair delas um pouco daquela paciência vital que as faz ter tantos metros. Era como se sussurrassem para ele, em música. Extasiado subiu na árvore mais alta que achara e, de lá, viu o mais belo amanhecer. Precisava disso. Tentava descobrir o porquê de não fazer isso mais vezes. Tinha tornado-se adulto demais, ou surdo demais.
Não foi egoísta ao ponto de ficar lá o dia inteiro, embora fosse isso que quisesse. Foi em busca do próximo ponto, e no caminho viu que estava sendo levado para um lugar que lhe parecia tão íntimo, mas ao mesmo tempo, aterrorizantemente distante. Procurava por rotas ou guias que pudessem levá-lo a algum lugar. Nada. Foi então que decidiu deixar o coração guiá-lo.
Conhecia os lugares pelos quais passava, já estivera ali antes. Era um apartamento pequeno, que não tinha nenhum móvel, a vista, se olhasse bem, dava para um campo gramado com algumas árvores. Sentiu-se em casa, uma sensação que lhe causava certa desconfiança, mas, ao mesmo tempo nutria seu coração com esperança. Fez planos ali. Se viu levando uma vida ali.
Ao deixar o apartamento, imediatamente, foi levado à um outro lugar, não muito distante dali. Uma casa grande e muito bonita, com uma árvore na frente. Infelizmente não vira a árvore em seu esplendor da primavera mas, não deixou de ficar impressionado com ela. Entrou pela porta da frente e ao ver o carpete branco, uma lembrança cortou seu pensamento como um raio.
- Tira o sapato para subir – pensou, rindo consigo mesmo.
Não deixou de reparar que algo naquela casa lhe atraía como um imã. De olhos fechados, como se tivesse os passos em seu coração, subiu e foi direto ao primeiro quarto à direita, no final da escada. Demorou um tempo em frente à porta e, quando a abriu, fez com cuidado para que não fosse percebido. Não podia deixar de notar a ansiedade que fazia com que seus olhos lacrimejassem.
Então a viu. Dormia, ainda que o Sol já começasse a passar pela persiana da janela. Buscou um canto na cama em que a via envolta num lençol cor de noite. Respirou fundo e ficou lá, olhando. O silêncio ainda se fazia na casa. Nem sabia há quanto tempo já estava lá quando, num ato de um profundo agradecimento, inclinou-se, beijou-lhe as mãos e a testa e ajeitou-lhe o cabelo para que pudesse se ver seu rosto. Teve certeza de nunca ter visto um rosto tão belo na vida.
Triste por ter que ir, partiu quando o despertador falou que era hora de acordar.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
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