quarta-feira, 9 de junho de 2010

Capítulo 1

Acordou e sentiu que o Sol não invadia seu quarto. Com os olhos ainda fechados tateou o móvel ao lado da cama buscando o relógio como se buscasse uma explicação pro dia não ter nascido ainda.
3:48. Mesmo assim, sentou-se na cama como se estivesse querendo muito voltar a dormir mas não conseguia.
Levantou-se e foi buscar um copo d'água. Quando voltou ao quarto, se viu ali deitado em seu edredom vermelho sangue.
Encarou aquela imagem por alguns instantes e então, num movimento tão brusco e tão espontâneo, virou-se eu deu de costas àquela imagem que lhe causava tanta estranheza.
Sentia uma estranha sensação de liberdade correndo denovo nas veias, e assim, cheio de energia, abriu a porta e saiu. Não precisava das chaves do carro, nem da carteira e muito menos do maço de cigarros que teria sido seu fiel companheiro nos últimos dias.
Saiu andando. Deixou seu lado miserável deitado na cama e foi ver o mundo.
Passou pela portaria do prédio e acenou para o guarda que toma conta do portão mas, como já suspeitava, não obteve resposta. Tudo bem, não se importou com isso e seguiu seu caminho andando em um passo tão acelerado que nem parecia que realmente estava andando.
Fez seu caminho sem olhar mapas, já sabia onde iria. Quando se deu por si, viu o mar. Estava naquela casa denovo, onde tanto aconteceu, de onde guardava tanta coisa, aquela casa que fazia sussurros virarem paixão. Ficou um minuto lembrando de como era quando havia tanto amor, tanta vida naqueles cômodos.
Virou as costas e continuou seguindo seu caminho. Voou pelas estradas que cortam a cidade cinza em que vive e, novamente, chegou a um lugar que, em sua vida, é muito importante. O lugar que é seu santuario de sabedoria. Onde vai quando precisa de um conselho, quando precisa de uma luz, quando clama por explicações sobre a vida.
Viu um homem velho, sentado em um banco próximo à uma árvore de flores cor de rosa e não pode notar o olhar de preocupação com que o homem o fitava por trás dos óculos de lentes tão grossas.
Ao se sentar ao lado daquele homem, se sentiu em paz e, num ato de puro instinto, agarrou-lhe a mão forte e calejada do velho e colocou em seu rosto.
- O que você está fazendo de sua vida, meu neto?
- Sempre acreditei fazer o certo, vô. Sempre tive esperança no futuro, mantive o amor vivo em meu coração. Não consigo entender, as coisas não fazem mais sentido.
- O sentido que você procura, não está aqui comigo, Pê. Não há nada para você ver nesse lado de cá. Procure em você o sentido porque este é o único lugar que você poderá achá-lo.
Se despediram com um longo abraço, um abraço que traduzia uma saudade de dois anos.
Seguiu mas, não queria voltar pra casa.

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